Estrela de Belém: o que diz a tradição e o que se sabe
A Estrela de Belém aparece só no Evangelho de Mateus, no capítulo 2, que conta que magos vindos do Oriente seguiram uma estrela até a casa onde estava o menino Jesus. Não existe registro astronômico que identifique essa estrela com certeza: as explicações mais citadas são uma conjunção de Júpiter e Saturno em 7 a.C., um astro novo anotado por astrônomos chineses por volta de 5 a.C. e a leitura simbólica do próprio texto.
Abaixo estão o que o evangelho diz e o que veio depois pela tradição, as hipóteses astronômicas comparadas numa tabela, os motivos de nenhuma delas fechar a questão, a estrela na arte e um guia para observar o céu de dezembro com as crianças no Brasil.
O que o Evangelho de Mateus conta sobre a estrela
O relato da Estrela de Belém está em Mateus 2,1-12, e o Evangelho de Lucas, que também narra o nascimento, não fala da estrela. Em Mateus, magos chegam a Jerusalém perguntando onde está o rei dos judeus que acabou de nascer, porque viram a estrela dele surgir.
O rei Herodes reúne os sacerdotes, que apontam Belém com base numa profecia. A estrela então vai à frente dos magos e para sobre o lugar onde estava o menino. Eles entram na casa, encontram Jesus com Maria, oferecem ouro, incenso e mirra e, avisados em sonho, voltam para a terra deles por outro caminho.
Muito do que se conta hoje veio depois, pela tradição:
| O que está no texto | O que veio da tradição |
|---|---|
| Magos vindos do Oriente | Que eram três e que eram reis |
| Três presentes: ouro, incenso e mirra | Os nomes Gaspar, Melchior e Baltasar |
| Uma estrela que surge e depois vai à frente | Uma estrela com cauda, como um cometa |
| O encontro numa casa | A visita na gruta ou no estábulo, ao lado dos pastores |
O número três foi deduzido dos três presentes, e os nomes aparecem a partir do século VI, como no mosaico da basílica de Santo Apolinário Novo, em Ravena, na Itália. A palavra “magos” indicava sábios, provavelmente estudiosos dos astros da Pérsia ou da Babilônia.
As explicações astronômicas para a Estrela de Belém
Astrônomos e historiadores propõem há séculos fenômenos reais que poderiam explicar a Estrela de Belém. Como Jesus nasceu provavelmente entre 7 e 4 a.C., antes da morte de Herodes, a busca se concentra nesse período. As hipóteses mais conhecidas:
| Hipótese | Quando | O que se viu | Dificuldade |
|---|---|---|---|
| Conjunção de Júpiter e Saturno | 7 a.C. | Os dois planetas se aproximaram três vezes no mesmo ano, na constelação de Peixes; Kepler levantou a ideia no século XVII | Os planetas nunca pareceram um ponto só e ficaram visivelmente separados |
| Cometa ou nova | Por volta de 5 a.C. | Astrônomos chineses anotaram um astro novo, visível por semanas | Os registros são curtos, e cometas costumavam ser vistos como mau presságio |
| Ocultação de Júpiter pela Lua | 6 a.C. | A Lua passou na frente de Júpiter em Áries, constelação que a astrologia antiga ligava à Judeia | Aconteceu perto do Sol, sem visibilidade a olho nu |
| Conjunção de Vênus e Júpiter | 3 e 2 a.C. | Em junho de 2 a.C., os dois planetas mais brilhantes ficaram tão juntos que pareciam um só ponto | A data fica depois da morte de Herodes pela cronologia mais aceita |
O desencontro de datas tem explicação. A contagem dos anos a partir do nascimento de Jesus foi feita no século VI pelo monge Dionísio, o Exíguo, com um erro de alguns anos, e por isso o nascimento costuma ser situado alguns anos “antes de Cristo”.
Por que nenhuma explicação fecha a questão
Nenhuma explicação astronômica dá conta de tudo o que Mateus descreve sobre a Estrela de Belém. Planetas e cometas cruzam o céu com o movimento da noite e não param sobre uma casa específica, e o relato diz que a estrela guiou os magos de Jerusalém até Belém, cerca de 10 quilômetros ao sul.
Por isso muitos estudiosos leem a estrela como sinal literário e teológico. Mateus escrevia para leitores que conheciam a profecia de Balaão, no livro dos Números (24,17), sobre uma estrela que surgiria de Jacó, e a imagem da estrela anunciava um rei. Na Antiguidade, também se acreditava que o nascimento de grandes figuras vinha acompanhado de sinais no céu.
As duas leituras não precisam brigar. Para quem tem fé, a estrela é parte do relato do nascimento; para a astronomia, é um enigma que provavelmente nunca terá resposta definitiva. O que se pode afirmar com segurança é o que o texto conta e quais fenômenos aconteceram de fato naqueles anos.
A Estrela de Belém na arte e na decoração
A Estrela de Belém com cauda, comum em presépios e cartões, deve muito a um pintor italiano. Por volta de 1305, Giotto di Bondone pintou a Adoração dos Magos na Capela Scrovegni, em Pádua, com um cometa no céu, provavelmente inspirado na passagem do cometa Halley em 1301. Quando uma sonda europeia visitou o Halley, em 1986, ganhou o nome de Giotto em homenagem a ele.
Daí em diante, a estrela virou sinal do Natal em muitas formas:
- a estrela no topo da árvore, lembrando a que guiou os magos;
- a estrela sobre a gruta do presépio, muitas vezes com cauda;
- a estrela que guia os personagens nos autos de Natal de escolas e igrejas;
- a estrela de cinco ou de oito pontas em janelas, cartões e enfeites.
Se a estrela vai para o alto da sua árvore, encaixe-a no fim da montagem, como mostra o passo a passo para montar a árvore de Natal.
Como observar o céu de dezembro no Brasil
Observar o céu na noite de Natal é um jeito simples de ligar a história da Estrela de Belém à experiência das crianças. Em dezembro, depois que escurece, a constelação de Órion aparece no leste, e as três estrelas alinhadas do cinturão dela são conhecidas no Brasil como Três Marias e, na tradição popular, também como Três Reis Magos.
Para a observação dar certo:
- escolha um lugar com pouca luz, como um quintal, uma praia ou uma área aberta longe dos postes;
- apague as lanternas e espere pelo menos 10 minutos para os olhos se acostumarem ao escuro;
- procure primeiro as Três Marias e siga a linha delas para encontrar Sírius, a estrela mais brilhante do céu noturno, que surge na mesma região pouco depois;
- se vir um ponto muito brilhante que quase não pisca, provavelmente é um planeta, como Vênus ou Júpiter;
- use um aplicativo de mapa do céu para confirmar o que está vendo naquela noite.
Um evento recente mostra como uma conjunção chama atenção. Em 21 de dezembro de 2020, Júpiter e Saturno ficaram tão próximos no céu que a imprensa apelidou o encontro de “Estrela de Belém”; uma aproximação parecida entre os dois planetas só volta a acontecer em 2080. Para acompanhar fenômenos astronômicos e materiais de divulgação, uma fonte confiável é o Observatório Nacional, instituição federal de pesquisa em astronomia.
Para transformar a noite em programa de família, combine a observação com outras atividades de Natal em família.
Perguntas frequentes
Quantos reis magos seguiram a estrela?
O Evangelho de Mateus não diz. O número três foi deduzido dos três presentes, ouro, incenso e mirra, e os nomes Gaspar, Melchior e Baltasar surgiram séculos depois.
A Estrela de Belém pode aparecer de novo?
Se ela foi uma conjunção de planetas, fenômenos parecidos se repetem, como o encontro de Júpiter e Saturno em dezembro de 2020. Mas não há como prever uma estrela igual à do relato, porque nem se sabe ao certo o que ela foi.
Como diferenciar uma estrela de um planeta no céu?
Os planetas costumam brilhar com luz mais firme, quase sem piscar, e mudam de posição em relação às estrelas ao longo de dias e semanas. Um aplicativo de mapa do céu confirma qual é qual.
Em que ano Jesus nasceu?
Provavelmente entre 7 e 4 a.C. A contagem dos anos feita no século VI pelo monge Dionísio, o Exíguo, tem um erro de alguns anos, e Herodes, que aparece no relato, morreu por volta de 4 a.C.